V Domingo da Quaresma
V Domingo da Quaresma
Aproximam-se aqueles dias intensos nos quais celebraremos o mistério da nossa salvação. No próximo domingo, a Igreja tornará a vivenciar a entrada de Cristo em Jerusalém e viverá a partir de então, e com muita intensidade, aqueles dias tão fortes da Semana Santa e do Tríduo Sacro. Tão perto de tão grandes acontecimentos, é maravilhoso poder escutar essas palavras de Jesus na Missa de hoje: “E quando eu for levantado da terra atrairei todos os homens a mim” (Jo 12,33).
Contemplamos Jesus levantado na cruz estendendo-se rumo a todos os pontos cardeais, mostrando-se como aquele servo que aparece na profecia de Isaias e que é feito “luz das nações, para propagar minha salvação até os confins do mundo” (Is 49,6). A cruz do Senhor atrai. Já disse e tornarei a repetir: erram todos aqueles cristãos que querem tirar a cruz do cristianismo, equivocam-se todos aqueles que querem apresentar um cristianismo light, sem exigências, a gosto do “cliente”. Certas comunidades, ditas cristãs, ao parecer muito interessadas no dinheiro dos “fregueses”, retalham a doutrina de Cristo e apresentam somente aquelas coisas que são consideradas agradáveis às pessoas atualmente.
Odo Casel (1886-1948), no seu livro Mysterium des Kreuzes (O mistério da Cruz) apresenta-nos de maneira magistral a verdade conhecida de que Cruz e o Mistério de Deus encontram-se intimamente unidos. A Cruz é reveladora tanto da grandeza de Deus quanto da feiura do pecado. Depois dessa consideração, Casel nos mostra o Mistério da Cruz em relação com o Mistério da Igreja, Corpo de Cristo que nasceu do seu Sangue Preciosíssimo na Cruz. Casel chama a Igreja de concorporea Christi, concorpórea de Cristo. A graça chega até nós através do Mistério da Cruz, motivo suficiente para que amemos a Santa Cruz. No seguimento do Crucificado, o cristão vive no Pneuma, no Espírito Santo, e não na carne. Aquele que renasceu “da água e do Espírito” (Jo 3,5) sabe que ad altiora natus est, nasceu para as realidades superiores. Para conseguir chegar até lá tem que lutar e mortificar-se naquilo que tem de carnal.
O nosso autor observa que nas culturas antigas, as árvores – especialmente os cedros – eram divinizadas. A Sagrada Escritura repugna essa visão divinizadora de árvores. Há três árvores na Bíblia muito importantes: a da vida – que segundo a vontade de Deus, o homem deveria comer os seus frutos e viver –; a da ciência do bem e do mal – da qual o homem comeu, instigado pelo demônio, preferindo um conhecimento fora da submissão e, por tanto, longe de Deus –; finalmente, a árvore da Cruz, que foi colocada na fronteira entre a morte e a vida, entre o mundo pecador e o “mundo” de Deus. Através da árvore da Cruz se pode ter acesso à árvore da vida que está no Paraíso. O ser humano, depois de ter sido expulso do Paraíso, não teve mais acesso à árvore da vida; Deus “colocou ao oriente do jardim do Éden querubins armados de uma espada flamejante, para guardar o caminho da árvore da vida” (Gn 3,24). A árvore da Cruz e árvore da Vida, para alguns Padres da Igreja, se identificam: Crux Christi est lignum vitae, a cruz de Cristo é o lenho da vida (S.Atanasio Sinaíta). A Cruz aparece como condição necessária para aceder à árvore da vida e graças à satisfação que Cristo ofereceu ao Pai, podemos aceder novamente à árvore da vida.
Nós buscamos a árvore da vida, mas às vezes, ao buscá-la de maneira equivocada, podemos acabar dançando ao redor da árvore da morte, que é um ídolo. O ser humano quer encontrar a felicidade nas coisas imediatas, aqui e agora, e não busca a árvore que está na fronteira e que dá acesso à árvore da vida. Temos que aplicar diariamente à nossa vida a contemplação que fizermos sobre o mistério da Cruz, ou seja, carregar a nossa Cruz a través da obediência e do amor.
A cruz de Cristo atraiu cada um de nós e continuará atraindo, também através da vida santa de cristãos bem dispostos a servir a Deus em todos os momentos e a todos os seres humanos por amor a Deus. Isso acontecerá se a nossa vida estiver selada pela santa Cruz, que aponta e traz em si o mistério da Ressurreição do Senhor. Tudo isso custará sacrifício, mas… O que foi a entrega de Cristo na cruz senão uma oferta, um dom sagrado (sacrifício), ao Pai no Espírito?
Pe. Françoá Costa

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